Nutrição baseada em evidência: O que é e por que importa?

Nutrição baseada em evidência significa ter uma conduta clínica lastreada nesses pilares: 

  • Ter discernimento para identificar e usar sempre a melhor evidência científica disponível. 
  • Ter conhecimento técnico e experiência profissional suficiente (expertise / know-how). 
  • Alinhar os dois pilares anteriores ao contexto único, valores e preferências de cada paciente.
Prática Baseada em Evidência

A ideia de PBE não é tão nova quanto parece

Esse termo que parece recente, começou a ganhar corpo na década de 70 na universidade de McMaster, no Canadá. Em 1981, o médico epidemiologista canadense David Sackett introduziu o conceito de Avaliação Crítica em uma série de artigos publicados para auxiliar os médicos a interpretarem a literatura científica de maneira sistemática. O termo “Medicina Baseada em Evidência” que dá origem a Nutrição Baseada em Evidência, foi usado oficialmente pela primeira vez na literatura por Gordon Guyatt, colega de Sackett na Universidade de McMaster em 1991.

Depois o termo ampliou-se tanto para “Saúde Baseada em Evidência” como também “Prática Baseada em Evidência (PBE)” para englobar diversas áreas da saúde e além. Aqui, “Nutrição Baseada em Evidência” e “Prática Baseada em Evidência” podem ser sinônimos.

Da “autoridade médica” e método GOBSAT à medicina moderna

Fiz essa introdução para você entender que até muito pouco tempo as decisões clínicas eram baseadas apenas na “autoridade médica” ou no que era conhecido como método GOBSAT (Good Old Boys Sat Around a Table ou, em bom português, “bons velhos conhecidos sentados ao redor de uma mesa) o que os médicos decidissem seria a conduta clínica.

Essa forma de conduzir a medicina contribuiu para ceifar a vida de inúmeras pessoas com procedimentos nocivos como a sangria, vômitos e purgativos, etc. O filósofo René Descartes, cuja morte foi registrada oficialmente por consequência de uma pneumonia, teve seus momentos finais abreviados por um procedimento de sangria. O presidente estadunidense George Washington, já enfraquecido por uma infecção na garganta, perdeu cerca de 2,5 a 3L de sangue pela sangria conduzida por seus médicos e assistentes, fato que pode ter sido a causa direta da morte por choque hipovolêmico.

Hoje, alguns profissionais ainda insistem em ter uma prática desconectada das evidências, muito similar ao que acontecia no passado.

Quando a ciência usa métodos rigorosos é você quem ganha!

Principalmente no ambiente da nutrição, você já deve ter percebido um movimento de: “esse alimento pode!”, um período depois: “Agora, não pode mais!” Esse acende e apaga de luzes não existe em meio a profissionais sérios que tem sua conduta baseada em evidência.

Na área da saúde, principalmente na clínica, os estudos existem para responder à perguntas sobre tratamentos/intervenções que podem trazer algum benefício ou não ao paciente. E não é qualquer tipo de estudo, de qualquer tamanho e feito de qualquer jeito. Precisa seguir protocolos metodológicos rígidos.

Se não houvesse metodologias rígidas, um produtor de leite, por exemplo, simplesmente poderia patrocinar um estudo cheio de vieses para defender e enaltecer seu produto e apresentar os resultados da forma que lhe fosse conveniente simplesmente para vender mais. Uma empresa que desenvolve uma molécula, um peptídeo, pode simplesmente patrocinar estudos enviesados que lhes sejam favoráveis e mesmo quando são feitos com rigor, publicam resultados fantásticos que não condizem com o que está apresentado no estudo (isso existe).

Nesses dois exemplos, os estudos com cara e corpo de artigo científico são publicados em revistas predatórias que aceitam qualquer coisa em troca de pagamento. Profissionais mal-intencionados ou leigos pegam esses artigos, geralmente sensacionalistas, e divulgam em blogs, revistas, redes sociais, usam em seus consultórios, e a população acaba confiando e cai nas promessas desses profissionais, perdendo seu tempo, dinheiro e em alguns casos, sua saúde.

Existem ainda os estudos conduzidos em animais: ratos, camundongos, etc., ou em células, numa plaquinha de vidro, cujos resultados são usados pelos mesmos “profissionais” para extrapolarem diretamente para seres humanos. Ou ainda, estudos que mostram associação entre uma intervenção e um desfecho e são usados como causalidade direta.

Refrigerante zero é pior para o fígado?

Vou te dar um exemplo: Em 2025, foi apresentado um estudo em um congresso europeu de gastroenterologia, UEG WEEK 2025, que acompanhou 123.788 participantes do UK Biobank mostrando que o consumo maior que 250g de bebidas com pouco ou nenhum açúcar aumentava o risco de doença hepática esteatótica associada ao metabolismo (sigla MASLD) em 60% e bebidas adoçadas com açúcar, aumentava apenas cerca de 50%.

Essa notícia explodiu na mídia assim: “Refrigerante Zero representa maior risco para o fígado que os tradicionais com açúcar”. Isso foi compartilhado e divulgado por uma série de profissionais da saúde leigos.
E você pode estar perguntando: E não é isso mesmo que diz ali? É exatamente o que diz ali… porém, contudo, todavia não é assim que funciona a transposição de um achado em um estudo diretamente para a recomendação clínica.

O tipo de estudo não consegue responder diretamente a pergunta clínica “bebidas zero causam mais doenças no fígado comparado a bebidas adoçadas com açúcar ?”. O estudo era uma coorte prospectiva, esse desenho de estudo não consegue estabelecer causalidade, apenas associação. É impossível afirmar, baseado nesse estudo, que bebida zero cause mais prejuízos ao fígado do que bebidas com açúcar.

Você precisa olhar nas entrelinhas

Há outro ponto, o comportamento médio de quem bebe refrigerante ou bebida zero ou apenas água é diferente de quem os toma na versão tradicional com açúcar. Pessoas com diabetes, sobrepeso, gordura no fígado e outras condições de saúde geralmente são orientadas por seus médicos a cuidarem melhor da alimentação, reduzirem o consumo de açúcar, etc., e acabam tendo maior propensão a aderir à bebida zero.

Há também a hipótese das pessoas sentirem-se mais livres para comer fast-food e ultraprocessados quando tomam bebida zero, pois traz uma falsa ideia de compensação. Essas pessoas tem maior risco de desenvolver doenças crônicas não pela bebida em si, mas pelo estilo de vida que levam. E pode ser esse público que já tem uma doença de base ou maior risco para desenvolvê-la que responde o questionário do estudo como: “tomo bebida zero”.

Esses dois casos mencionados podem causar confusão por indicação e causalidade reversa. Mesmo que se façam ajustes estatísticos, ainda assim restam ruídos que confundirão o resultado da pesquisa. Um nutricionista baseado em evidência consegue fazer esse filtro para que essas conclusões enviesadas ou fora de contexto não cheguem até você com recomendação clínica direta.

Certo! Mas como a ciência responde às perguntas clínicas?

Em algum momento da vida, você já se perguntou se gengibre ou alho servem para tratar gripe? Ou dieta alta em proteína e baixa em carboidrato é melhor que uma dieta equilibrada para hipertrofia?

Se sim, você quer saber se funciona em quais pessoas? Adultas saudáveis, adultas com alguma condição de saúde, alguma faixa etária específica? Pessoas de um lugar geográfico específico? Africanos, asiáticos, sulamericanos, europeus do norte, etc. Essas pessoas são atletas, sedentárias, praticam algum grau de atividade física? Por quanto tempo farão a dieta? Etc.

A resposta mais acurada vem de dois lugares:

  • 1 – Ensaios Clínicos controlados e aleatorizados de boa qualidade;
  • 2 – Revisões Sistemáticas com meta-análises desses bons ensaios clínicos (de preferência).

O problema é que nem sempre se consegue fazer ensaios clínicos controlados e aleatorizados de longa data, pois tornam-se caríssimos e no foco de estudos de nutrição, outro modelo de estudo acaba sendo mais utilizado.

As vantagens e desvantagens dos estudos observacionais

Aqui entram os estudos observacionais de coorte prospectivos bem conduzidos e as revisões sistemáticas dos mesmos. Imagine tentar randomizar um grande número de pessoas para consumir uma dieta pobre em carboidratos e gordura e rica em proteína e outro grupo para consumir uma dieta rica em carboidratos e pobre em proteína e gordura por pelo menos 10 anos. Isso é quase financeira e humanamente impossível

Os estudos longitudinais prospectivos acabam sendo muito úteis para nós nutricionistas, por serem menos caros e relativamente mais adequados devido às circunstâncias comparados aos ensaios clínicos aleatorizados, porém devem ser lidos de forma muito crítica, pois há inúmeros vieses e confundidores que mesmo ajustados ainda não conseguem ser eliminados de todo podendo causar ruído nos resultados. Por isso, o discernimento do profissional deve estar afiado para saber interpretar os dados que estão diante dele.

No final das contas, PBE é ser responsável

Agora que você leu o contexto, entendeu o que é Prática Baseada em Evidência e porque é essencial que todos os profissionais sejam baseados em evidências. Não teremos sempre o padrão-ouro da evidência para nossa pergunta, porém deve-se buscar sempre a melhor evidência disponível para a tomada de decisão clínica.

Em tradução para o mundo real: Usar apenas o que funciona ou o mais próximo disso possível. Nessa abordagem, quem mais ganha é o paciente!

Sobre o autor:

Melk Sales | Nutricionista – CRN8 19201

Referências:

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Disponível em 03/09/2026: https://www.utmb.edu/mdnews/welcome/episode/what-killed-washington

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